sábado, 18 de dezembro de 2010
Pulsação
In principio, o texto que se segue (ou sei lá o que se seguirá) é, antes de tudo, motivado pelo tempo convidativo e agradabilíssimo lá de fora. Da minha visão, as plantas parecem mais brilhantes, mais vivas, estranhamente humanas. Querem falar comigo. O sol é assim, meio brilhante, branquíssimo, de uma cor cegante. Clarice tinha razão quando dizia que sábado era a rosa da semana. E é. Agora, com mais intensidade, os feixes de luz parecem dar vida a tudo que é inanimado, como quem oferece amor aos desamados. A analogia que me cabe e que me vem é essa mesmo. No mais, o movimento dos carros é o mesmo: naturalmente caótico, pacificamente pertubador. Meu Deus, há vida lá fora. Só posso concluir que, sim, há um sentido após o depois. Que sábados desse dezembro se preservem. Parece que aqui se acaba. Mas, antes, deixem-me dizer uma coisa: plantaram um girassol na minha rua. Desde então, rezo silenciosamente para que ele vigore. Não quero outra coisa.
sábado, 4 de dezembro de 2010
E de repente essa sensação - algo vai acontecer. Você não sabe, mas sente, sente por senti, por esperança, por simplesmente acreditar que qualquer coisa, coisa assim, coisa pequena, insignificante, irrelevante, mediocridade, não se sabendo como, mas por si só sabendo: algo acontecerá. A sensação continua. Passam dias, meses, anos, o tempo. Ele passa, mas a Sensação permanece, como que sempre remoendo as mesmas palavras, sussurrando do mesmo modo, dizendo: eu sei que alguma coisa vai acontecer. Então se acontece, mas você não sabe que aconteceu. É simples, perceba - certas coisas que acontecem na vida não pedem observação, atenção, somente acontecem, e nós, destraídos, bobinhos que somos, não percebemos. Olha lá, aconteceu. Tentei te avisar. Tarde demais. Como é mesmo? Alguma coisa de não se chorar pelo leite derramado. E eu, nós bebemos o leite sem saber. O líquido viscoso e branco percorre a boca, inunda a língua de sabores, mas não sabemos. E continuamos a beber. Um dia a garrafa seca. Persiste a sensação: alguma coisa vai acontecer.
Já aconteceu.
Já aconteceu.
domingo, 28 de novembro de 2010
Eu quero te salvar, me deixa te salvar. Eu e minha total impotência: mas, sim, quero te ver bem. Escuta: vai passar, vai passar, vai passar. Canta comigo que tudo fluirá, fluirá bem. É questão de tempo. Ele sempre volta, não é mesmo? Então segura forte a minha mão, não solta, ela tá estendida sempre. Pra você, sempre. Repete comigo que tudo, tudo vai ficar tão bem.
sábado, 27 de novembro de 2010
O pequeno segredo.

- Presta bem atenção.
- Quê?
- Quer saber um segredo?
- Se.
- Você promete não contar?
- É.
- Então venha mais perto.
- Aqui.
- Me deixa soprar isso no seu ouvido.
- Sim.
- Então me diz.
- Então vem mais perto.
- Pronto.
- Eu não sei se devo.
- Deve.
- Eu não se posso.
- Pode.
- Tá.
- Você me diz?
- Quê?
- Isso.
- Assim?
- Assim como?
- Assim.
- I'm in love with you.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
Alguma coisa acontece.
Gosto dos nossos encontros casuais. Gosto do silêncio que paira entre nós. Não sei você, mas alguma coisa pulsa aqui dentro. Seja sincero: acontece o mesmo? Hoje, mais cedo, quando nos esbarramos - daquela forma: casualmente, inesperadamente, os dois surpresos -, percebi que a nossa comunhão se dava assim, como já disse: silenciosamente. E nós percebemos, não percebemos? Sabemos que, sim, alguma coisa acontece. Mas por isso fica. Não há cobranças no nosso não-relacionamento. Pré-relacionamento (alguma coisa acontece, bem sabemos). Apareça mais, por favor. Não cobrarei visitas suas, não traga nada, venha só você, assim inteirinho. Vista o seu melhor sorriso, ponha o seu mais brilhoso olhar e, quando por mim passar, apenas faça o que você sempre faz: me note. Ficarei feliz por saber que o nosso relacionamento, mesmo não existindo, deu certo.
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